Cientistas Brasileiros desenvolvem Cura para Tretraplégicos

Produto biológico desenvolvido na UFRJ, polilaminina ganhou ampla repercussão ao estimular crescimento de axônios e aguarda aprovação da Anvisa para novos estudos sobre eficácia e segurança.

Mais de 10 mil novos casos de lesão medular ocorrem por ano no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Grande parte dos casos está relacionada a acidentes de trânsito e a ferimentos por arma de fogo. A ciência se debruça sobre o tema há anos na busca por tratamentos que ajudem na reversão da lesão e na recuperação dos movimentos. Recentemente, uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) acendeu um lampejo de esperança e foi noticiada país afora: um estudo clínico acadêmico demonstrou avanços nessa regeneração com o uso de um produto biológico em um pequeno grupo de voluntários. O caso mais chamativo foi o de Bruno Drummond de Freitas, de 30 anos, que voltou a andar após sofrer um grave acidente de carro e ficar tetraplégico.

Pesquisadores conseguiram reconstituir in vitro a estrutura que a laminina, uma proteína natural do corpo humano, assume quando está no organismo. A laminina é uma espécie de “cola biológica” que une as células e facilita a comunicação entre os neurônios. Quando é extraída dos tecidos, ela perde sua estrutura original. Injetá-la simplesmente no local da lesão, então, não levaria à reestruturação dos movimentos. O diferencial da pesquisa foi, justamente, descobrir como reconstituir a estrutura polimérica no tubo de ensaio, antes de injetar nos pacientes.

Nos estudos, a versão polimerizada em laboratório, chamada de polilaminina, revelou-se capaz de estimular o crescimento dos axônios, os prolongamentos dos neurônios que conduzem os impulsos nervosos, quando injetada na medula de pacientes nos primeiros dias após a lesão.

“Extraímos laminina da placenta, por ser normalmente um material humano descartado, e com grande quantidade dessa proteína. No início, não estávamos procurando como refazer a rede (de laminina). Na verdade, estávamos estudando esse pedaço, tentando abri-lo para entender como se formava. Mas nos surpreendemos. Sem esperar, conseguimos montar uma rede em laboratório”, explica a bióloga, professora e pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. “Continuamos as pesquisas e, ao longo dos anos, demonstramos que nosso complexo tinha exatamente a mesma estrutura da rede de laminina natural. Então percebemos que tínhamos criado um processo de restituição da estrutura supramolecular da proteína in vivo, no corpo. Tínhamos uma ferramenta em mãos que nunca ninguém no mundo tinha tido”. Desde então, diz, todos os dias antes de dormir ela pensa nos pacientes com lesão medular que um dia poderão receber a polilaminina obtida da pesquisa.

O produto aguarda ainda aprovação da Agência Brasileira de Vigilância Sanitária (Anvisa) para realização de um novo estudo clínico regulatório, com mais pacientes. Caso aprovado, será posteriormente produzido pelo laboratório brasileiro Cristália em parceria com a UFRJ.